Por Ary Alonso Millan(†)

Que coisa linda é o amor!

Tão lindo e tão perigoso… Não, pelos riscos que parecem existir quando amamos, mas, sim, pelo equívoco de acharmos que é a solução para todas as mazelas humanas.
Independentemente de as pessoas não terem respeito uns pelos outros, falam e escrevem sobre o belo sentimento para se sentirem proprietárias dele.

É interessante observar como mesmo o amor de uma mãe, quase sempre sublime, na maioria das vezes é apenas uma demonstração de interesse próprio no intuito de manter a prole protegida para seu sossego. Diz a Sagrada Escritura que é nosso dever amar o próximo, mas um estranho capricho da natureza faz com que a prática seja percebida como uma lenda. Quase ninguém viu…

A nossa essência é o desejo pelo melhor; para isso, porém, somos capazes de estabelecer todo tipo de limite. No entanto, em nome do verdadeiro sentimento, qualquer barreira deve ser superada, qualquer exagero, tolerado; afinal, é o amor. Vivemos para encontrá-lo. Com essa finalidade, criamos manifestações exageradas de emoções, como prova de sua existência. E a maior delas é a doação.

O governo, na sua generosidade peculiar, doa dinheiro aos pobres numa demonstração de amor. Os religiosos pedem doações como prova de que o amor salva. O encontro virtual entre amigos e amores supera todas as barreiras. O mundo é dos atores e atrizes porque, sob o manto do sentimento que deveria unir, estão todos cada vez mais separados pelos fatos.

Mas o show deve continuar, e pouco importa a verdade – não interessa o porquê das coisas, apenas a aparência que pode levar à empatia e à fama. Em algum momento, vamos perceber que, se os nossos atos não corroboram nossas palavras, de nada elas valem – mesmo que se diga “eu te amo” um milhão de vezes.

Cuide da causa e controle o efeito.